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QUEM FOI BERT HELLINGER?

Bert Hellinger nasceu em Leimen - Alemanha, morava em Cologne – Itália, sendo parte de uma família católica. Aos 10 anos, foi seminarista em uma ordem Católica.

Apesar disso, aos 17 anos se alistou no exército e combateu com os nazistas no front, sendo preso na Bélgica. Aos 20 anos, com o fim da guerra, se tornou padre.
Se formou no curso de Teologia e Filosofia na Universidade de Wurzburgo em 1951.
Foi enviado como missionário católico para a África do Sul, onde atuou como diretor de várias escolas, como o Francis College, em Marianhill.

Em 1954, obteve o título de Bacharel de Artes da Universidade da África do Sul e, um ano depois, graduou-se em Educação Universitária.

No final dos anos 1960, abandonou o clero e voltou à Alemanha, onde passou a estudar Gestalt-terapia. Mudou-se para Vienna para estudar psicanálise. Ali, conheceu sua primeira esposa, Herta, uma psicoterapeuta.

Em 1973 se mudou para a Califórnia para estudar Terapia Primal com Arthur Janov. Lá, se interessou pela Análise Transacional.

Hellinger se divorciou de Herta e casou-se com Marie Sophie, com quem mantém cursos, oficinas e seminários em vários países.

Após deixar a ordem religiosa, dedicou-se a uma formação terapêutica diversificada que abrange desde a psicanálise até a terapia familiar, incluindo a terapia primal, a Terapia da Gestalt, a análise transacional e a hipnoterapia.

Sua contribuição mais original é o seu modelo de Constelações Familiares, baseado numa visão integral e profunda da realidade humana. A partir das constelações familiares, ampliou seu método de trabalho para outros sistemas, assim como as constelações empresariais, constelações organizacionais, constelações educacionais, os conflitos étnicos, etc.

O conjunto de todos os tipos de constelações advindas do modelo criado por Bert, passou a ser chamado de Constelações Sistêmicas.

Na Revista “A Serviço da Vida” Bert Hellinger nos conta como tudo começou e como foi a sua dura vida.

Esta revista está a serviço do trabalho das constelações sistêmicas. É alemã e foi traduzida para que possamos nos beneficiar deste rico conhecimento e poder aplicá-lo em nossa vida diariamente, ela está a serviço do trabalho das constelações sistêmicas.

 

Veja o que ele diz:

“Ultimamente muitos se pronunciaram a meu respeito, frequentemente sem me conhecer e sem conhecer o meu trabalho. Portanto falarei a meu respeito pela primeira vez”.

“Começarei pelo o meu passado. Vivenciei o nacional-socialismo do início ao fim. Portanto sou uma das poucas testemunhas da época que estão vivas. Sei do que estou falando. Ainda me lembro exatamente quando uma noite meu pai entrou pela porta de casa após o trabalho e disse a minha mãe: “Hitler é Chanceler do Reich”. Estava muito apreensivo. Ele tinha uma noção do que isto significaria para nós.

Pouco depois sentimos na própria pele o que significava. Morávamos em Colônia e num dia de domingo queríamos fazer um passeio para as montanhas. Fomos à missa matinal e quando saímos da igreja esperamos pelo bonde. Então um integrante da SA (Strumabteilungtropa de assalto) aproximou-se do meu pai e fez um comentário desaforado. Meu pai também fez um comentário. Por conseguinte o integrante da SA se pôs a gritar com o meu pai e queria prendê-lo. Neste momento o bonde chegou. Meus pais e nós – três crianças – entramos no bonde rapidamente. O condutor fechou a porta imediatamente e o bonde partiu. O integrante da SA, no entanto, subiu em sua bicicleta e aos berros seguiu o bonde. O condutor do bonde não parou na estação seguinte e continuou até que tinha se livrado do homem que nos perseguia. Os passageiros aplaudiram. Naquela época isto ainda era possível em Colônia. Mais tarde, porém, não. Naquela época eu tinha sete anos.

Com dez anos de idade entrei para um internato em Lohr am Main. Para fazer o segundo grau, porém, frequentei o colégio da cidade. Um pequeno episódio mostrará como era o internato para onde eu tinha entrado.

Após a adesão da Áustria à Alemanha houve um plebiscito. Aparentemente alguns padres do internato e algumas irmãs que trabalhavam na cozinha haviam votado “não”. Não era, porém, uma votação sigilosa. Os votos foram interceptados. A noite teve uma grande passeata da SA e em seguida um grupo de integrantes da SA posicionou-se em frente à casa que era o internato. Com letras maiúsculas rabiscaram nos muros: “Aqui moram traidores” e “votamos no não”. Depois quebraram cerca de 200 vidraças a pedrada. As pedras atingiram também o dormitório onde estávamos dormindo. Na manhã seguinte dois padres foram submetidos à detenção cautelar e nós saímos de férias. Em 1941 este internato foi fechado.


Eu fui a Kassel (Alemanha) para onde os meus pais haviam se mudado no meio tempo. Lá frequentei o segundo grau. Aderi a um grupo pequeno do movimento da juventude católica que, porém, havia sido proibido muitos anos antes. Aparentemente éramos observados pela Gestapo (polícia secreta do Estado). Após a sétima série a turma inteira teve que entrar para o Arbeitsdienst (serviço de trabalho do Reich) e depois para a Wehrmacht (forças armadas).

Bem no início da minha estadia no Arbeitsdienst, uma noite um dos supervisores entrou pela porta, veio diretamente em minha direção e envolveu-me em uma conversa. Era da Gestapo. Eu, porém, naquela época não o sabia. Envolveu-me numa conversa sobre Nietsche e Hegel. Naturalmente, com 17 anos de idade eu sabia apenas muito pouco a respeito. Porém, alguma coisa, eu sabia. Então, durante a conversa, ele disse: “Hegel previu o Estado como o temos hoje.” E eu disse: “Pelo meu conhecimento, Hegel odiava o Estado”. Então, subitamente, ele falou: “O senhor odeia o Estado”. Logo percebi que se tratava de um interrogatório da Gestapo.

Um ano depois a nossa turma recebeu o certificado de conclusão do segundo grau por correio. Eu, neste meio tempo, já servia a Wehrmacht, e estava estacionado na França. O último ano do segundo grau nos foi dado, uma vez que, estávamos todos na Wehrmacht. Foi, porém, requisitado um certificado de conduta do Arbeitsdienst. A mim o certificado de conclusão do segundo grau foi negado uma vez que no meu certificado de conduta do Arbeitsdienst estava escrito: Trata-se de um sujeito anti-social, que potencialmente pode prejudicar o povo. Vocês podem imaginar o que isto significava naquela época? Significava: Ele está liberado para ser morto.

Tudo que hoje em dia, às vezes, acontece comigo fatalmente me lembra essa situação. Quando a minha mãe soube do ocorrido foi até o diretor do colégio e disse: “Meu filho está servindo na Wehrmacht. Está colocando sua vida em jogo e vocês o negam o certificado de conclusão do segundo grau?” O diretor envergonhou-se e entregou-lhe o meu certificado de conclusão de segundo grau. Minha mãe lutou por mim como uma leoa. Eu, então, estava na Wehrmacht, ativo na frente oeste.

Muitos dos meus camaradas morreram ou foram gravemente feridos. Eu mesmo, muitas vezes, escapei da morte por pouco. Por exemplo, quando tivemos que atravessar um campo minado por falta de outra saída. Quando chegamos a Aachen fui mandado para um acampamento em Charleroi na Bélgica como prisioneiro de guerra dos Americanos. Éramos 1600 prisioneiros e trabalhávamos 10 horas por dia em um enorme depósito americano. A mando de Eisenhover, porém, só recebíamos a metade das calorias necessárias para este trabalho, o que servia de castigo para os Alemães. Alguns de nós tiveram a coragem de fugir. Foram pegos e imediatamente posicionados contra a parede e mortos a tiros. Um ano depois eu também tentei a fuga e consegui. Pouco antes do meu aniversário de 20 anos estava, finalmente, livre. Meu irmão, porém, permaneceu na guerra. Eu já não corria mais perigo porque a Alemanha havia perdido a guerra. De modo contrário não estivaria seguro.

O sofrimento decorrente dos danos psicológicos, no entanto, está presente diariamente. Quantas pessoas que me agrediram não vivenciaram nada parecido na própria pele e tiveram que se defender contra um sistema totalitário sob perigo de vida?”

O presente

Agora quero voltar-me para o presente. Por que existem tais ataques e calúnias contra a minha pessoa?

A principal acusação é que eu reconheço, também, um agressor como ser humano assim como a mim mesmo. Esta é a maior inconveniência.

Como cheguei a assumir tal postura? Em primeiro lugar porque me sinto na sucessão de Jesus. Ele sentava-se à mesa com os pecadores. Por este motivo outros se incomodavam. Ele aboliu a diferenciação entre o bom e o mau. Por exemplo, quando disse: “Sejam misericordiosos como também o pai de vocês é misericordioso. Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.” Este é o amor em sua essência que não exclui mais ninguém.
Um segundo aspecto foi importante pra mim. Eu pude ver através do meu trabalho que existe uma forte ligação entre agressor e vítima.

A primeira vez que o percebi foi durante um curso de Constelação Familiar em Berna quando um homem constelou a sua família. 

 

Narrativa de uma Constelação....

 

Um homem havia posicionado sua família.

Depois disse: “Tenho que falar mais uma coisa. Eu sou judeu. Ninguém da minha família, porém, morreu. Nós vivíamos na Suíça.”

Mas a sua mãe havia-se suicidado e ele também corria perigo de suicídio. Era possível observar que ele e sua mãe no fundo da alma estavam intimamente ligados às vítimas judias.

Depois eu simplesmente posicionei sete representantes para os judeus assassinados e atrás deles, há 2 metros de distância, sete representantes para os assassinos.

Depois deixei que os representantes das vítimas se virassem para os agressores e não interferi mais.

Surgiu um movimento do fundo da alma entre vítimas e agressores. Os agressores estavam tomados por uma dor imensa. Quando avistaram as vítimas estenderam as mãos em direção a elas e as abraçaram. Um dos agressores disse: “Esta é apenas uma vítima. Há outras centenas de vítimas que tenho que encarar.”

De repente foi possível ver como vítima e agressor no fundo eram uma unidade, ligados por um amor profundo. Como isto era possível? Tanto os agressores como as vítimas puderam ver que estavam entregues a uma força maior que atuava por detrás deles. Um dos agressores disse: “Sinto-me como se fosse um dedo de uma mão poderosa que pertence a um poder ao qual estou totalmente entregue.”

Esta foi a primeira experiência deste tipo.

A partir desse momento eu não pude mais enfrentar os agressores como se fossem diferentes ou como se fossem inumanos ou como se não fossem, também, incentivados por uma força maior que atua por detrás deles.

Apenas através do reconhecimento que vítimas e agressores são mutuamente atraídos fui capaz de servir à paz em diversos países.

Primeiro em Israel. Fui convidado três vezes para cursos em Israel. Lá eu fiz exatamente o que descrevi aqui. Posicionei as vítimas e os agressores uns de frente para os outros. Também aqui foi possível observar como precisavam se movimentar na direção dos outros. Não tinham como escapar deste movimento.

Uma grande experiência que fiz durante estas constelações foi que os mortos - as vítimas mortas e os agressores mortos - podem e querem encontrar-se a não ser que seus descendentes assumam a questão destes mortos e queiram repetir todo o drama novamente. Assim impedem a reconciliação.

A mesma experiência fiz também na Turquia no conflito entre Turcos e Armênios. E no Japão quando posicionei vítimas e agressores de um grupo junto com as vítimas e os agressores do outro grupo.

Quando damos espaço aos movimentos da alma, vimos e sentimos que no fundo a alma deseja a reconciliação. Quer unir o que estava, até então, separado.

O que contraria este movimento?

A petulância da consciência tranquila. Todos estes atos graves, todos esses ataques partem de pessoas que estão convencidas de que possuem a consciência tranquila e de que são inocentes. Pensam que a sua boa consciência dá-lhes o direito de agredir os outros e até aniquilá-los. Todos os grandes conflitos obtêm sua força da consciência tranquila. O desejo de aniquilação de um grupo contra um outro se origina na consciência tranquila de cada um. Ambos os lados possuem uma consciência diferente que é, porém, sempre tranquila.

Desta maneira servi a paz em muitos países.

Na Espanha, por exemplo, existia o mesmo movimento no conflito entre Espanhóis e Bascos. O Basco que constelou este conflito estava aberto para esta reconciliação. Mas no dia seguinte alguém lhe passou um bilhete escondido ameaçando-o de morte. Por quê?

Porque ele queria superar a separação.

Tive uma experiência parecida com os descendentes dos partidos da guerra civil na Espanha. Porque o conflito continua de forma velada e muitos esperam que finalmente se possa ter paz. Assim foi também em vários outros países.

Isto me dá força de continuar andando por este caminho independente do que os outros falam de mim. Unir o que estava separado é o processo essencial de cura dentro das famílias como podemos observar nas constelações familiares. E também entre grupos rivais.

 

A Serviço da Vida 
Uma revista a serviço do trabalho das constelações sistêmicas segundo Bert Hellinger.
Com artigos da revista alemã “HellingerZeit Schrift” - revista trimestral alemã de autoria de Bert Hellinger e Marie-Sophie Hellinger.
Reprodução autorizada.
Direitos autorais para o português da Editora Atman.
Tradução: Filipa Richter
Revisão: Tsuyuko Jinno-Spelter
Diagramação: Virtual Edit Coord.
Editorial: Décio Fábio de Oliveira Júnior
Revista 0 – edição alemã em 05/2005